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Cooperativismo e o protagonismo das mulheres superam os desafios da produção de café no Brasil


A responsabilidade de abastecer o país, e até mesmo o mundo, através da produção de alimentos nunca será fácil, pelo contrário, sempre existirão muitos desafios.  Falando especificamente sobre o café, há uma série de fatores que tornam essa realidade um tanto quanto imprevisível se não houver muito esforço, boa gestão, cooperação e reconhecimento mútuo.

Quando são pontuados o preparo e os cuidados que um café de qualidade exige, desde o plantio ao armazenamento ou até mesmo a comercialização da produção, é possível perceber que os desafios vão além do que se pode imaginar. A instabilidade climática do Brasil é um exemplo, destaca o presidente da Coocafé, Fernando Cerqueira: “Atualmente o maior problema enfrentado pelos produtores de café do Brasil tem sido o clima, porque ele não tem controle aparente; ainda que tenhamos a previsão do tempo a assertividade é baixa e muitos eventos são catastróficos, como o que vivenciamos esse ano e continuamos vivenciando. E infelizmente esse é um problema que foge das mãos dos cafeicultores”.

Há também outros fatores como a bienalidade da cultura, que faz com que em um ano seja presenciada uma super-safra, enquanto no ano seguinte uma colheita bem menor, as incertezas do mercado quanto ao preço do café e até mesmo a alta no valor monetário dos insumos. Para Cerqueira isso pode ser um problema grave: “o aumento dos preços dos insumos agrícolas, dos combustíveis, ferramentas que são utilizadas para fazer a produção acontecer podem desafiar a continuidade da cultura. Além disso, temos também a questão trabalhista que é um problema muito grave e difícil de ser enfrentado, principalmente em pequenas propriedades. A gestão é outro ponto importante, pois falta conhecimento por parte dos produtores sobre como gerir os custos com eficiência para poder trabalhar o presente e projetar o futuro”.

Mas, se por um lado os desafios são grandes, por outro o cooperativismo e o protagonismo das mulheres mostram que maiores ainda são quem os enfrenta.

O PAPEL DO COOPERATIVISMO

O trabalho da Coocafé como apoio aos produtores no enfrentamento desses desafios é realizado através das consultorias técnicas, que tem como objetivo desenvolver os associados para que se tornem verdadeiros especialistas na produção de café, e tudo isso é feito de forma personalizada para a região e propriedade em que estão inseridos. Além disso, pautada nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis da ONU  - 4 (educação de qualidade), 5 (igualdade de gênero), 10 (redução das desigualdades) e 11 (cidades e comunidades sustentáveis) -, a cooperativa oportuniza também às esposas, filhas (os) e demais familiares participar de ações de reponsabilidade socioambiental e projetos que contribuem para o crescimento da produtividade e qualidade dos cafés, sempre colaborando com o meio-ambiente .

Com graduação em cooperativismo e muito conhecimento na área, um dos responsáveis por esse trabalho de campo é o analista de desenvolvimento cooperativista da Coocafé, Ailton Ribeiro e ele destaca que o cooperativismo é um grande aliado do produtor “é por meio do cooperativismo e das boas práticas de cooperação que a cafeicultura e o agronegócio nacional consegue superar os maiores desafios, pois o processo de troca de conhecimentos, economia solidária, ajuda mútua sustentável e disponibilidade de créditos e finanças direcionados é que alavanca o mercado por intermédio de um braço tão importante da economia social (que são os trabalhos incansáveis das Cooperativas)” – reforça o analista.

(fotos: acervo Coocafé e colaboradores)

O PROTAGONISMO DAS MULHERES

Trazido por Francisco de Melo Palheta, o café que hoje é a principal, se não a única, fonte de renda de milhares de famílias chegou a solo brasileiro em meados dos anos 1727. Na história, há vestígios de que os primeiros grãos foram enviados pela esposa do governador francês Claude d’Orvilliers. Demonstrando então que há quase três séculos a mulher faz a diferença nessa história.

Mas infelizmente, no contexto da cafeicultura, o reconhecimento quanto ao trabalho feminino nas propriedades ainda é pequeno. Em uma pesquisa realizada pela Embrapa, principal órgão de pesquisa brasileira agropecuária, os resultados apontam que somente em 2017 foi registrada a participação das mulheres na produção de café. De acordo com a pesquisadora, Helena Alves, “a ausência de mulheres em entidades representativas do setor levou a uma percepção equivocada de que, no Brasil, as mulheres não desempenham papel relevante na cafeicultura”. Os números levantados demonstram também que de 300 mil estabelecimentos rurais com café, apenas 24% do total são dirigidos e/ou codirigidos pelo sexo feminino. 

Importante destacar é que essa realidade não fez com que muitas dessas mulheres desistissem de colocar a mão na massa, ou melhor, no café, mas ao contrário disso, elas têm saído do papel de coadjuvante e se tornado verdadeiras protagonistas de suas histórias de sucesso em meio a tantos desafios.

QUALIDADE DO CAFÉ E DE VIDA

E por falar em protagonismo, nas Matas de Minas, Reinildes de Barros se destaca. A cafeicultora é esposa, mãe, avó e com muita determinação e garra tem escrito sua história como uma verdadeira Mulher do Café.

A produtora, que hoje é proprietária de cerca de 16 mil árvores cafeeiras, conta que nem sempre trabalhou com lavoura própria, por muitos anos colheu café para terceiros; muitas vezes precisou abrir mãos de sonhos comuns para conseguir, junto a seu esposo, adquirir uma propriedade e se dedicar ainda mais à produção de café. Os anos passaram e com o empenho da família e a atitude de Reinildes, as conquistas foram maiores do que ela imaginava:  aumento da produtividade da lavoura, produção de café de qualidade e como consequência disso melhorou também a qualidade de vida dela e da família.

Eu sempre trabalhei com café. Em 1999 nós herdamos uma pequena propriedade, mas não tinha produtividade e muito menos qualidade. Foi em 2013 que, após trabalharmos muito para terceiros e juntarmos dinheiro, nós conseguimos replantar a lavoura; trocamos por uma cultivar melhor. Sete anos depois, em 2020, nós descobrimos que nosso café pontuava bem e tinha um sabor frutado, ficamos apaixonados. Com tantos desafios, eu estava sofrendo com crises de ansiedade e precisei ir ao psicólogo tratar de uma depressão, mas há pouco mais de um ano eu faço parte da AMUC (Associação de Mulheres do Café da região das Matas de Minas e Caparaó), conheci o trabalho da associação através da minha filha, que atuava em outro segmento na época, e resolvi participar de uma reunião, desde então nunca mais saí do grupo e nem precisei voltar às consultas. Nos encontros nós conversamos muito sobre nossa realidade, trocamos ideias, aprendemos juntas. A associação abriu portas que eu jamais imaginava e tem me dado oportunidades que eu não acreditava poder alcançar. E a partir de então tenho buscado mais conhecimento para fazer com que a nossa propriedade cresça, nossa produtividade siga aumentando e a qualidade seja cada vez melhor. E lógico, ao longo de todos esses anos de aprendizado e mudanças sempre tivemos o apoio da Coocafé. O consultor técnico está sempre presente e esse apoio faz toda diferença”.

(fotos reproduzidas no instagram de Reinildes / @sitio_manhuacuzinho)

PIONEIRISMO E FORTALECIMENTO DA CULTURA

Em Piatã, cidade localizada na Bahia, Patrícia de Alcântara foi uma das pioneiras na produção de café. A produtora relata que quando assumiram a propriedade, ela e o esposo, ambos não conheciam absolutamente nada sobre o cultivo, mas tinham vontade de mudar de vida.

Quando nos mudamos para Piatã não existiam lavouras de café. Os moradores locais não acreditavam que a região fosse propícia para a produção dos grãos. Ao longo de todos esses anos que vivemos absolutamente da cafeicultura, passamos por inúmeros desafios, o primeiro foi aprender a produzir, em seguida convencer as pessoas que daria certo. O resultado: mesmo no calor da Bahia, a cidade que é localizada a 1200 metros de altitude, descobrimos que é excelente para o cultivo do arábica”.

Os desafios só mudam de endereço. Esse ano o Sul de Minas sofreu com uma severa geada, que custou muitos anos de trabalho para inúmeros produtores. Já na Bahia, Patrícia diz que foram dois meses de seca, sem nem uma gota de água se quer. “Como estamos sempre buscando por inovações e soluções que diminuam ou impeçam o impacto dos fatores externos na nossa lavoura, nós temos irrigação de salvação, então não fomos tão prejudicados e logo que iniciou a florada a chuva veio e fez o seu papel nesse momento que é tão importante. Mas produtores com estruturas menores sofreram um pouco mais com as altas temperaturas e falta de chuva”.

A cafeicultora, conta ainda, que sempre esteve ao lado do esposo em todos os processos de produção até a comercialização do café. “Hoje nossa propriedade tem 11 hectares de café e cada mudinha foi plantada por nós dois. Já tivemos a oportunidade de criar a primeira associação e cooperativa da cidade, onde atuamos na diretoria por dez anos. O primeiro despolpador da região era nosso. Somos pioneiros da cafeicultura aqui em Piatã. Hoje temos uma pequena torrefação que atende a comunidade, colaboramos com o envio dos cafés pra exportação, e levamos o nosso café e a nossa cidade para o Brasil e o mundo. A BSCA reconheceu recentemente as melhores regiões produtoras e os melhores cafés e ver que estamos representados em grande número me deixa com muito orgulho da nossa trajetória”.

(fotos reproduzidas no instagram de Patrícia / @cafegourmetpiata)

DESAFIOS FORAM FEITOS PARA SEREM VENCIDOS

O café faz parte da rotina dos brasileiros, é a segunda bebida mais consumida no mundo e coloca o Brasil no topo da lista de maior país produtor do grão. Se ao acordar nós temos a oportunidade de sentar à mesa e saborear um delicioso café é porque alguém, ao levantar da cama, às 4 ou 5 da manhã, se propõe a vencer todos os desafios que essa cultura tão rica lhes impõe. Há também um movimento, o cooperativismo, que impulsiona esses produtores a estarem sempre preparados, participativos quanto ao mercado, legais perante o fisco, especialistas em gerir. E além disso, existem mulheres, que se unem cada vez mais para o fortalecimento da cultura, aperfeiçoamento do processo produtivo, envolvimento da mulher e da família (filhos e gerações vindouras) na cafeicultura, e principalmente para o reconhecimento de suas árduas jornadas de trabalho por trás dessa xícara que une tantas pessoas.

Autora: Daniella Lopes Vieira de Souza - Analista de Comunicação e Assessora de Imprensa Coocafé (20/11/2021)

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